Livro reflete sobre o papel dos curadores de artes cênicas no Brasil


Em "O que pensam os curadores de artes cênicas", a pesquisadora e crítica teatral Michele Rolim conversa com quinze dos principais curadores da área sobre a função e a importância da curadoria na construção e no desenvolvimento das artes cênicas no Brasil. A partir dos anos 1990, vivemos a multiplicação de festivais no país, o que estimulou a discussão sobre o tema. No livro, entrevistadora e entrevistados são instigados a pensar juntos sobre a figura do curador e como sua função se desenha no Brasil. A obra faz parte da Coleção Dramaturgia da Editora Cobogó.

“Esse livro é uma tentativa de compreender como o modelo de gestão e o modelo artístico dentro de um festival interagem, mostrando que o curador não atua de forma isolada. Ele se insere em um sistema de relações e de poder, e também em um contexto histórico, social, político, cultural e econômico”, diz a autora. O material começou a ser construído a partir da dissertação de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O livro lança perguntas para um debate mais aprofundado sobre o papel dessa figura que vem ganhando contornos mais precisos na cena brasileira. Por exemplo, como propor um recorte curatorial para festivais com grande número de espetáculos? Quais são os caminhos do processo criativo de um curador? E, afinal, o que é um curador de artes cênicas? As entrevistas mostram que há múltiplas definições. “Ainda estamos tateando nessa questão”, afirma Marcelo Bones, diretor teatral. A historiadora Tania Brandão adverte que, antes de tudo, o curador é um espectador atento, curioso e cuidadoso. A necessidade de uma reinvenção permanente foi ressaltada pela consultora de projetos artísticos e culturais Márcia Dias. O diretor teatral e autor Eid Ribeiro lembra que ser curador envolve muita responsabilidade, “porque você não vai agradar a todo mundo”. Já o produtor e curador João Carlos Couto Magalhães destaca a necessidade de estar constantemente buscando novos públicos, “senão vamos falar sempre para as mesmas pessoas”. E que pensamento o curador busca? Ao longo das entrevistas será possível perceber que não há um denominador comum em relação a essa pergunta, já que a curadoria é feita, em grande parte, de subjetividade. “É impossível ignorar a trajetória e o gosto pessoal de cada curador”, afirma Michele. No Brasil, os cursos de curadoria são recentes e voltados, em geral, para as artes visuais. A maioria dos curadores de artes cênicas adquiriu conhecimento em campo, no dia a dia de suas atuações, pela leitura de textos e pelas experiências ao longo da vida. Segundo a autora, uma certeza se impôs em todo esse processo: a importância da curadoria dentro de um festival ou mostra de artes cênicas. Afinal, “apesar de efêmeras, as artes da cena põem em contato indivíduos diferentes, e não apenas os anônimos da multidão”, como afirma o crítico Valmir Santos, que assina o prefácio do livro.


Sobre a autora Michele Rolim nasceu em 1986, em Porto Alegre. É jornalista, pesquisadora e crítica teatral, doutoranda em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-Graduação da UFRGS (2015). É repórter de cultura do Jornal do Comércio, em Porto Alegre, coeditora do site Agora Crítica Teatral (www.agoracriticateatral.com.br) e membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro, filiada à Unesco. Também é uma das idealizadoras do site Cênicas (www.cenicas.com). Vencedora do Prêmio Açorianos de Dança (2015), na categoria mídia, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre (2014), e do Prêmio Ari de Jornalismo, categoria reportagem cultural, da Associação Rio-Grandense de Imprensa (2010, 2011, 2014).