Diário de Bordo: Festival de Teatro de Caracas - 2017

Antes de viajar para Caracas, gente disse que era uma loucura ir para esta cidade agora. Marchas, manifestações, bombas, prisões, fome, crime e tudo mais que podemos pensar de ruim.Claro, paguei para ver. Quer dizer, quem pagou a viagem foi o Festival de Teatro de Caracas em sua sexta edição e pela segunda vez com caráter internacional. Em 2015 eu já havia participado levando ao festival o espetáculo Olympia, do Grupo Teatro Andante, do qual sou diretor. Este ano fui convidado como programador e também com a função de acompanhar o espetáculo Aqueles Dois, da Cia Luna Lunera, um dos grupos integrantes da Platô – Plataforma de Internacionalização do Teatro, que coordeno. Inclusive, vale dizer aqui, fizeram um sucesso estrondoso por aquelas bandas.

Mas voltemos ao medo. Como convidados do governo venezuelano, os vinte e cinco programadores internacionais recebiam cuidados especiais em hotel bacana, vários receptivos sempre disponíveis, transportes exclusivos, etc. Cuidados extensivos aos artistas internacionais. Desde o início já podíamos sentir que havia uma tensão na cidade. Entre os estrangeiros, e os venezuelanos que nos recebiam, todos comentavam abertamente a questão delicada pela qual passa o país. Visível o número grande de policiais e exército nas ruas e a interrupção de várias vias públicas próximas às marchas e manifestações. Por outro lado, visível também certa normalidade de uma cidade grande. Fui a um centro comercial comprar pasta de dente onde o Mac Donald, Burger King e demais franquias mundiais, todas presentes além de lojas de roupas de marcas mundiais. As pessoas andando nas ruas, filas em alguns pontos, feiras de rua funcionando, supermercado aberto e papel higiênico na prateleira.

Claro que fiquei próximo ao centro da cidade e não me aproximei da periferia que, como em qualquer cidade latino-americana, deve ser mais pobre e mais violenta. Claro que não fui a nenhuma marcha e não vi a repressão anunciada. Claro que conversei mais intensamente com defensores do chavismo do que com pessoas ligadas à oposição. Claro que tive uma visão parcial da cidade e do país como sempre tive e terei nessas visitas a qualquer cidade do mundo. Vi que no centro histórico tem muitos teatros e cinemas restaurados e equipados como estratégia de ocupação. Vi ruas com sujeira maior que o esperado. Vi um trânsito desordenado e muito tráfego em determinadas horas, como em qualquer cidade. Vi um canal de TV defendendo o governo e outro atacando, ambos defendendo a constituição. Vi pedintes nas ruas e vi bairro com arquitetura chique. Vi muitas e muitas propagandas de Chaves e Maduro em enormes pôsteres pela cidade, sendo que uma destas incidências era numa muita interessante universidade, gratuita, exclusiva de formação artes, criada por Chaves.

Uma cidade/país com muitas contradições e conflitos, quem não os tem? Destaque para a gente muito amável e alegre. Uma tribo teatreira caraquenha também esperta e antenada, que produz teatro interessante. Por falar nisso, e o Festival? Grande!!! Vinte e seis espetáculos internacionais de dez diferentes países. Intensa programação espalhada pelos teatros centrais e pelos teatros de bairro, que são muitos. Pela primeira vez, a Venezuela organizou o “Mercado de Artes Cênicas” com pitchs e agendamento de reuniões entre os produtores locais e os vinte e cinco programadores internacionais convidados. Aconteceu também o Seminário “Estratégias para a Circulação Internacional” onde fiz uma conferência sobre o Observatório dos Festivais. Teatro cheios e um espaço ao ar livre que acomodou a Cidade do Teatro com mais de quinze mil pessoas frequentando diariamente este espaço com uma programação diária de teatro de pelo menos 6 horas. Teatros pequenos de cem lugares até grandes teatros com mais de dois mil e quinhentos assentos, sendo utilizados em mais de trezentas apresentações. O Festival é o organizado pela FUNDARTE, órgão responsável pela política de artes da cidade de Caracas junto com o governo central.

Fui e voltei vivinho, esperto e certamente afetado pela experiência. Mais amadurecido nas ideias artísticas, teatrais, políticas e vivenciais.